26.3.26

Belzebu Boceja?

Padre Duarte de Lara, em um curto vídeo, atribuiu ao bocejo um provável distúrbio diabólico extraordinário, seja ao orar ou ao entrar numa igreja. Já na percepção do Padre Josileudo Queiroz, trata-se de um fenômeno normal, próprio de um momento de relaxamento. Quem está certo?
Autorretrato, Bocejando. Joseph Ducreux.
1. Neste ponto é que a ciência é sempre trazida como última a explicar de maneira quase sempre definitiva um fenômeno. Contudo, desta vez ela não vai poder fazer muito, já que os estudos disponíveis acerca do bocejo não são conclusivos e geralmente mais especulam do que se propõe a resolver a questão.

2. Especulação por especulação, voltemos então aos padres que discordam entre si sobre o que é bocejar, pois isto não pode ser ora diabólico, ora normal. Tendemos a acreditar na segunda opinião ao invés da primeira, qual seja, de que as pessoas bocejam por estarem relaxadas — o que é normal ao entrar na igreja ou ao orar.
3. Gostamos muito de ambos os padres, porém, de Lara traz uma preocupação em termos de fontes primárias sobre aquilo que disse acerca do bocejo. Ao abordar o assunto, Papa Francisco, talvez a última autoridade eclesiástica a relacionar tal fenômeno, menciona que bocejar tem a ver com a acédia.
4. Ainda assim o bocejo é posto como efeito da acédia ao invés da causa. De onde de Lara, ainda que sem querer, pôde concluir algo diabólico sobre isso? Examinamos a jurisprudência islâmica e achamos a resposta em um Hadith ou tradição oral do Islã, sendo fonte secundária, mas tão importante quanto o Alcorão.
Bocejar dentro da oração provém do diabo, então se algum de vocês bocejar, que ele suprima tanto quanto ele pode.
5. Nesse Hadith, um relato de Abu Hurayrah (603-679) sobre aquilo que disse Maomé (570-632), lê-se assim: “Bocejar dentro da oração provém do diabo, então se algum de vocês bocejar, que ele suprima tanto quanto ele pode.” — o que não é encontrado em outras fontes anteriores, exceto a acédia ou “demônio do meio-dia” na Patrística.

6. Fisiologicamente, o que é perceptível no bocejo é a relação com estágios de sono ou de relutância, podendo ser verificado em momentos diversificados, desde o tédio até o pós euforia. Mesmo um bebê ainda dentro da barriga da mamãe boceja — e não é dentro da igreja ou quando está orando. Porém, ainda assim a ciência não diz tudo sobre isso.

7. Também é importante verificar se os bocejos, se alguém faz com alguma frequência que lhe possa ser incômoda, não são consequências de alguma condição ou mesmo enfermidade física ou psicológica, motivo pelo qual deverá procurar um médico, especialmente se especializado, ainda que possa ter uma boa autoconsciência.

8. Mas não poderia ter alguma causa de ordem espiritual? Sim, com certeza, porém, qualquer coisa poderia ser resultado de um distúrbio diabólico, motivo pelo qual se deve esgotar antes as causas naturais para começar a investigar as preternaturais, donde o grande risco à fé é gerar confusão a respeito do que se manifesta objetivamente.

9. Objetivamente, absolutamente nada pode ser tido por distúrbio diabólico, mas que, esgotando-se as possibilidades científicas, descartar aquelas que são preternaturais também se torna em equívoco, pois pelo exorcismo, realizado por uma autoridade sacerdotal devidamente investida, verdadeiros milagres já aconteceram.

10. Embora o Padre Duarte de Lara seja exorcista e discípulo do famoso Padre Gabriele Amorth (1925-2016), aquelas considerações acerca do bocejo podem ser salvas com algum esforço nosso. Imaginemos, portanto, alguém que boceje sempre ao iniciar suas orações, causando impedimentos variados, ainda que não tenha sono.

11. Impedimentos que realmente dificultam entrar em oração como se deve ou se deseja (talvez uma dezena pelo santo de devoção), fazendo com que isso seja, ao invés de um exercício pacífico, um ato de imenso sacrifício, donde algumas vezes se torna impossível continuar — e a desistência não é uma questão de acédia.

12. Se isso acontecer, mesmo que uma única vez, melhor tratar disso diretamente com seu diretor espiritual, no intuito de encontrarem o discernimento necessário para prosseguirem, espiritualmente, com uma solução — mas não deixando de lado as possibilidades que poderão ser aferidas através de exames médicos.
    Para referenciar esta postagem:
ROCHA, Pedro. Belzebu Boceja? Enquirídio. Cascais, 26 mar. 2026. Disponível em https://www.enquiridio.org/2026/03/belzebu-boceja.html.

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